Filmes

Elegia Oriental (1996, 45 min.)

Frame 39’45’’ retirado do filme Elegia Oriental

Com este filme Sokúrov inaugura o assim denominado ciclo oriental. Para se aproximar do Japão o cineasta capta alguns de seus habitantes meio a uma paisagem mítica, envolta em névoas, como um sonho perdido. Em busca de vestígios de uma cultura ancestral  Sokúrov nos revela, em perspectiva poética, um país envolto em mistérios e encantamento. Suas poderosas lentes captam, através de distorções ópticas e de um obsessivo trabalho de pós-produção, uma cultura distante dos estereótipos batidos pela mídia tradicional, e esculpe um Japão que cede espaço mais às pessoas e suas memórias do que ao já gasto flerte com o progresso e desenvolvimento, comumente exaltado no ocidente. Em narrativas comoventes e depoimentos singulares de seus mais velhos habitantes, o cineasta convida o espectador a penetrar, não em um Japão por ele documentado, mas em um país de seus sonhos, de seus desejos, perdido no tempo, que se torna assim, para nós, irrecuperável.

Hubert Robert. Uma Vida Afortunada (1996, 26 min.)

Frame 04’51’’ retirado do filme Hubert Robert – Uma vida afortunada

O que haveria em comum entre um pintor de paisagens europeu, francês, do final século XVIII, e a arte milenar japonesa? Se buscarmos possíveis e, talvez, improváveis aproximações tais como o silêncio, o espaço e o tempo, poderemos, através da hábil direção artística-cinematográfica de Sokúrov encontrar possíveis elos: a paisagem é redimensionada em sua exuberância pela desproporcional representação da figura humana, tão ínfima que quase se perde no interior dos quadros. Tal e qual podemos encontrar: tanto nas paisagens de Hubert Robert quanto nas pinturas medievais japonesas. Nelas paira um tempo, suspenso; e a mesma inquietude silenciosa que habita tanto o palco da vida quando os museus onde tais paisagens se instalam, a exemplo do explendoroso Hermitage, em São Petersburgo onde esta cinematográfica viagem está apenas por começar.

Vida Humilde (1997, 75 min.)

Frame 15’20’’ retirado do filme Vida Humilde

O que poderia haver de singular na vida de uma costureira japonesa? Como um exímio retratista, em Vida Humilde, Sokúrov aproxima seus olhos e ouvidos do cotidiano de Umeno Matsuyoshi e passa a extrair de cada um de seus gestos, do espaço e dos objetos que a cercam uma beleza e uma singularidade comoventes. É assim que o mestre russo contemporâneo nos oferece a visão e a audição de uma artesã japonesa que faz de sua vida um ritual de criação de kimonos e sendo esta “costureira” capturada na plenitude de seu cotidiano (se é que há plenitude no cotidiano) pela habilidade cinemática de Sokúrov, tudo se redimensiona: a vila se transforma em um espaço encantado e a costureira em uma espécie  de fada que não costura apenas kimonos, mas habita o imaginário daqueles que ainda acreditam que há alguma possibilidade de salvação na habilidade de mãos que tecem, dia a dia, vestimentas que abrigarão corpos destinados a atravessar desconhecidas jornadas.

dolce… (1999, 60 min.)

Frame 20’07’’ retirado do filme dolce…

Pode parecer impensável registrar com delicadeza e sutileza, em imagens e sons, as confissões íntimas de uma senhora de idade já madura, viúva e mãe de uma jovem acometida de séria deficiência. E torna-se mais impensável ainda, sabendo-se que não se trata de personagem, mas uma figura “real”: a viúva do muito conhecido escritor japonês Toshio Shimao, morto em 1986. Miho Shimao, a mulher em questão, literalmente desnuda-se, espiritual e existencialmente, frente à câmera e microfones de Sokúrov. E o faz de maneira singular, porém dramática. Como o diretor conseguiu essa façanha, lírica, convincente e comovente, ainda é uma história a ser contada e, certamente, outra história. Por hora, o que vale é adentrar este universo íntimo. Isso, se tivermos coragem. Pois não é de um big brother que aqui se trata, e sim das camadas mais sutis que só se deixam captar quando o diretor é, de fato, um mestre.


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